23 de mar de 2014

Ásia

Ir para a Ásia sempre foi um sonho, mas de uns tempos para cá havia se tornado uma necessidade como viajante.

Sempre amei viajar, o que significa gostar de ir para qualquer lugar. Realmente acredito que todo destino valha a pena, ainda que seja para no fim dizer que não gostei. É que somente estando lá podemos tirar essa conclusão e mesmo que o lugar não seja lá essas coisas, ele sempre terá algo para nos mostrar e ensinar.
Mas existem lugares que despertam um algo mais. E por mais que eu ame as cidades medievais europeias e os grandes centros urbanos ocidentais, é nos lugares mais afastados da minha cultura e da minha realidade que encontro o maior êxtase em viajar. Foi assim com o mundo árabe, foi assim com as paisagens nórdicas, foi assim com o Peru e com Cuba... E era exatamente isso que eu esperava da Ásia. Foi também exatamente isso que eu encontrei.
Embora concentre boa parte da população mundial, fato que por si só o torna um destino obrigatório, o oriente é bastante desconhecido pelos ocidentais, o que se justifica pelas enormes distâncias que nos separam: distâncias geográficas, físicas, religiosas e culturais, entre tantas outras. Isso faz com o que o oriente seja um mundo completamente novo, onde nos sentimos verdadeiramente estrangeiros, mesmo em um planeta tão globalizado. E os olhinhos puxados não deixam dúvidas: na Ásia, os estranhos somos nós.
Aliás, nesse ponto a Ásia nos dá um verdadeiro soco no estômago e nos faz questionar nossa visão limitada sobre nosso modo de vida, que acreditamos ser um padrão universal. Basta folhear as revistas de turismo para encontrarmos a definição dos países orientais como destinos de viagem: exóticos. É no mínimo arrogante consideramos como exótico o lugar que abriga mais de 60% da população mundial. É preciso cair na real: diferentes somos nós.
Vivenciar esse mundo novo foi uma das experiências mais enriquecedoras que já tive, me permitiu ampliar verdadeiramente meus horizontes e enxergar o mundo além da minha realidade tão limitada.
A Indochina, assim como o ocidente, está cheia de cidades enormes e super povoadas, que no entanto parecem ainda mais caóticas e enlouquecedoras. Para os padrões ocidentais, tudo pode parecer sujo demais, pobre demais e cheio demais. Portanto, o primeiro passo para ser feliz por lá é esquecer os padrões. Somente com a mente e a alma abertas será possível absorver tudo o que esse canto do planeta tem a oferecer. E isso não é pouco.
Em um mês de viagem: comi escorpião; chorei comendo hot spicy salad; assisti a um show de pompoarismo; fiz massagens diárias nos pés; assisti três dos quatro mais belos pores do sol da minha vida; vi templos cheios de ouro, pedras coloridas e brilho e vi casas habitadas de 12m²; aprendi sobre a história da Tailândia, do Vietnam, do Laos e do Camboja; vi praias com água azul turquesa e paisagens dramáticas de tirar o fôlego; mergulhei com tubarões e peixes supercoloridos que parecem ter saído de um desenho animado; vi pessoas pulando corda de fogo enquanto enchiam a cara com drinks servidos em baldinhos de praia; abracei tigres; vi mulheres girafas; aprendi a fazer comida tailandesa e a amar curry, leite de coco, tamarindo e pimenta; vivenciei diariamente uma religião da qual não conhecia absolutamente nada, visitei dezenas de templos indescritivelmente bonitos, fui benzida por um monge, bati-papo com outros dois que queriam treinar seu inglês e aprendi que, no budismo quando, fazemos algo errado somos nós mesmos quem devemos nos perdoar; acordei as quatro da manhã para ver centenas de monges com roupas laranja pedindo comida nas ruas de Luang Prabang, um dos rituais mais belos do mundo; andei de elefante, tomei banho com um elefante e me encantei pelo olhar dócil dos elefantes; nadei em uma cachoeira gelada com a água mais azul que já vi na vida; vi ursos asiáticos em pé; jantei em um restaurante que servia carne de cachorro; conheci uma baía de água verde esmeralda com milhares de pequenas ilhas que mais parece o paraíso; atravessei a rua em Hanoi (e só quem conhece Hanoi sabe o que isso significa); comi na rua; comi em mercados; comi no 32º melhor restaurante do mundo; comi enguia e caramujo de jardim sentada em um banco de plástico infantil em uma esquina movimentada de uma cidade de oito milhões de habitantes; bebi café com ovo; jantei assistindo um gato comer um rato na cozinha do restaurante; pesquei (ou melhor, tentei pescar) a lula servida fresca no almoço do dia seguinte; me impressionei com a conservação da múmia de Ho Chi Min; fiz roupas sob medida com costureiras vietnamitas; andei pelas ruas iluminadas pelas lanternas coloridas de Hoi An; vi pessoas carregando “uma casa” na garupa de uma moto; conheci o sorriso de um cambojano e percebi que a vida pode ser muito mais simples do que imaginamos; conheci uma das maiores obras da humanidade e me impressionei com tudo em Angkor; experimentei durian, a fruta mais fedorenta que se pode imaginar; quase morri de calor em Bangkok, Luang Prabang e Sien Reap; tomei picolé de feijão; tomei picolé de arroz; descobri que em tailandês “sorry” é “soly”, porque eles trocam o “r” pelo “l”, exatamente igual ao cebolinha, e que em laociano “oi” se diz “sabaidee” e que isso soa como música para os ouvidos; ouvi o canto dos monges; ouvi o batuque dos monges; assisti ao almoço dos monges e percebi que naquele canto distante do planeta as pessoas são sorridentes, alegres, gentis e hospitaleiras.
Enfim, na Ásia vivi em um mês a experiência de uma vida e descobri que o mundo todo se une por um sorriso. Também reforcei uma certeza que já tinha: por mais diferente que possamos ser, buscamos todos exatamente a mesma coisa. Ou, como eles dizem por lá: “Same same... but different.”


 

4 comentários:

  1. Me emocionei lendo o que você viveu e relembrando o que vivi por lá, Flávia! Aquela região é única, mágica, linda e nos faz repensar muitos conceitos. E, como dizem por aí, a Ásia vicia! :-)

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    1. Que bom que gostou, Camila! É sempre gostoso relembrar, não é?! Quanto a viciar, vicia tanto que já estou com passagem comprada para a China e Japão! rsrsrs. Tudo de bom. Beijos

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  2. Tinha certeza que essa sua viagem renderia ótimos textos, Flávia. Este é apenas a primeira comprovação. Muito bom!
    Bjs,
    Viviane

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    1. Fico feliz que tenha gostado, Vivi. Ainda mais vindo de uma super blogueira como você! Já já tem mais :) Beijão

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