15 de dez de 2013

Campos de Concentração - Visitá-los ou não?


Ontem sonhei com Wroclaw, uma cidade polonesa lindíssima que incluí por acaso na minha viagem ao país. Revisitar essa viagem me fez lembrar também de uma conversa de boteco que tive na semana passada e que agora resolvi transformar em uma postagem para o blog: vale a pena visitar os campos de concentração?
Já estive em dois campos de concentração nas minhas andanças pela Europa: Sachsenhausen, nos arredores de Berlim e Auschwitz, na Polônia.
Certa vez contei para um amigo com empolgação sobre essa experiência e a reação dele me surpreendeu bastante: não seria essa experiência desnecessária?
E aí me lembrei de uma professora de história que tive na sétima série, que iniciou o ano letivo com uma frase mais ou menos assim: a história serve para que possamos conhecer o passado, e, através dele, entender o presente e construir um futuro melhor.
E isso, na minha opinião, responde de forma definitiva às duas pergunta colocadas acima: Não é que visitar um campo de concentração valha a pena. Visitar um campo de concentração é necessário.
É pesado? Sim.
É triste? Demais.
Você vai sair de lá arrasado? Espero que sim (mas isso não será nada, perto do que sofreram as pessoas que passaram por lá).
Isso vai atrapalhar sua viagem de férias maravilhosas pela Europa? Jamais.
Visitar um campo de concentração irá enriquecer sua alma e te ensinar mais sobre a história que os doze anos letivos que você passou na escola.
E é exatamente para isso que eles estão lá, conservados e transformados em museus: para que as pessoas possam visitá-los e sentirem de forma concreta o peso dessa página tão triste da história da humanidade.
Museus como esse existem justamente para que a história não seja esquecida, por um motivo muito simples: uma história como essa não pode ser esquecida. Muito pelo contrário, ela precisar ser lembrada, reforçada e repetida, para que nunca volte a acontecer.
O que parece, entretanto, é que não temos feito bom uso da história, pois apesar do nazismo não mais existir, diversas outras formas de violência em massa contra pessoas permanecem, ainda mais próximas de nós, permanecendo também a inércia e o comodismo da humanidade.
É preciso que as pessoas se lembrem que o holocausto aconteceu há muito pouco tempo (basta pensar que meus avós assistiram a tudo) e que ainda é uma ferida aberta para muitas famílias e sobreviventes. E é preciso que essa história não se perca à medida que novas gerações se desenvolvam.
Em matéria recente publicada no site Terra, um sobrevivente dessa triste história afirma que “apesar de muito já ter se falado sobre o holocausto, nas palestras de que participa, ainda sente adolescentes distantes da real dimensão do que aconteceu. "Já me perguntaram se conheci Hitler. Em geral, as novas gerações pouco sabem sobre os genocídios que aconteceram recentemente em Camboja ou Ruanda, por que saberiam sobre a Segunda Guerra?"” (Fonte: Terra Educação).
Na mesma reportagem, uma aluna de 14 anos conta como foi o encontro com um sobrevivente de um campo de concentração: "Quando a gente lê, parece que estão inventando. A gente não consegue acreditar que aquilo fez mesmo parte da história (...) sentir o sofrimento de perto mudou seu ponto de vista sobre a história.”
Certo é que a aproximação com o fato e o sentimento que isso provoca transformam por completo nossa visão sobre a história meramente contada. E é por tudo isso que recomendo a todos uma visita a um campo de concentração.
Como diz a placa em Sefardi (língua dos judeus provenientes da região ibérica), erguida em Birkenau: Que este lugar, onde os nazistas exterminaram um milhão e meio de homens, mulheres e de crianças, a maior parte de judeus de vários países da Europa, seja para sempre para a humanidade um grito de desespero e um sinal (de advertência).

Minha experiência
Como disse, já visitei dois campos de concentração.
A primeira visita foi na minha primeira viagem para a Europa, em 2008, e foi sem dúvida a que mais me impactou. Sachsenhausen fica próximo a Berlim, a cerca de uma hora de trem do centro da cidade. Esse não era, em princípio, um campo de extermínio, embora no final do regime nazista tenha se transformado em um. Ainda assim, era difícil sair vivo do lugar, onde as pessoas morriam de doenças, desnutrição e maus tratos.
Sachsenhausen é um campo bem menos visitado que outros famosos como Dachau, próximo à Munique, e Auschwitz e, pelo menos naquele dia estava muito vazio. Praticamente só existia meu grupo e um ou outro visitante isolado, o que permitiu uma visita mais introspectiva e silenciosa. Com pouca parte da sua estrutura conservada, o lugar é um grande descampado onde se encontra um museu sobre a história do local. Fiz a visita com uma guia, o que foi fundamental, e me lembro como se fosse hoje do paredão de fuzilamento e das ruínas da câmara de gás. O que se vê, são apenas tijolos, mas andar sobre eles nos transporta de corpo e alma para a história do lugar.
Visitar Sachsenhausen foi algo muito impactante. Prova disso é que eu, que sou completamente viciada em fotografias, não tenho um único registro do local, pois não consegui tirar nenhuma foto. Vários fatores fizeram com que essa visita fosse tão intensa: era a primeira vez que ia a um campo de concentração, estava frio e nublado, o lugar estava muito vazio e a guia era excelente. Foi impossível não sair dali muito triste e reflexiva.
A segunda visita foi em Auschwitz, o maior e mais famoso campo de concentração existente. Auschwitz é na realidade um complexo de campos de concentração e de extermínio e tem sua estrutura praticamente intocada. Auschwitz é impactante por sua história e por conter os vestígios concretos de tudo que ocorreu lá. Mas infelizmente a visita não foi tão tocante quanto à anterior.
Não foi por ter sido a segunda vez, pois afirmo com convicção que não é possível se acostumar com a sensação de estar em um campo de concentração, mas porque o lugar estava extremamente cheio e era impossível me concentrar no que eu via e ouvia. As visitas são feitas em grupos enormes e os guias andam muito rápido e você é obrigado a seguir em frente sem pausa, pois logo atrás vem outro grupo enorme. Além disso as pessoas não param de conversar em voz alta, além de travar uma verdadeira guerra pela melhor fotografia do lugar. Isso atrapalha muito, pois esse é um lugar que merece muito respeito, silêncio e introspecção.
A famosa frase nazista: "o trabalho liberta" e a multidão que disputa uma fotografia do local
De toda forma, Auschwitz traz algumas provocações que tocam fundo em nossa consciência, principalmente nas salas onde se encontram os cabelos, sapatos e objetos pessoais dos presos, todos amontoados em enormes montanhas que dão a verdadeira dimensão dos números ali representados. Essa exibição também traz muitas fotos em close dos presos, o que personifica a atrocidade ocorrida ali, deixando uma sensação terrível de angústia e indignação. A pergunta que vem à mente a cada segundo é: como isso pôde ocorrer?
Em Auschwitz é possível entrar nos diversos barracões onde viviam os presos e nos prédios onde funcionavam a administração dos campos. Também é possível entrar no edifício onde funcionava a câmara de gás e avistar, durante toda a visita, o arame farpado que cerca o local, talvez o maior símbolo de tudo o que aquilo significou.









Tudo muito pesado, tudo muito triste e também totalmente indispensável. Porque viajar não é só um instrumento de lazer e diversão. Pode ser também um grande instrumento de aprendizado e vivência.









4 comentários:

  1. Nunca visitei um campo de concentração, mas tenho a mesma opinião. Na minha última viagem também presenciei algumas condutas que eu considerei desrespeitosas, mas em ambientes diferentes. Uma vez foi numa apresentação dos dervixes em Istambul. É claro que aquilo não era um ato puramente religioso, afinal, era uma apresentação turística, mas uma turista acabou totalmente com qualquer possibilidade de que houvesse um ambiente propício à apreciação do momento. Ela rodou a sala durante a apresentação toda, andando atrás dos músicos e tirando fotos com flash para todos os lados. A segunda vez foi durante a Ronda das Almas no Laos. Apesar de avisos na cidade toda pedindo para os turistas respeitarem a tradição e assistirem a passagem dos monges de longe, novamente ocorreu uma sequência de desrespeitos.

    Flávia, comecei a seguir vocês no instagram, mas só agora parei para ler o blog com calma. E cheguei aqui por causa de um colega de trabalho, o Frederico (meu chefe!). Ele sabe que tenho um blog e me falou do seu quando ele estava planejando a viagem para Cuba. ;-)

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    1. Oi Camila, tudo bem? O Fred me falou mesmo de você e do seu blog, inclusive estive com ele esse fim de semana. Coincidentemente eu já havia visitado seu site algumas vezes. :) Só depois liguei o nome à pessoa! Ele me contou ontem que você fez um roteiro muito parecido com o que vou fazer em fevereiro. Estou indo para Tailândia, Vietnam, Laos e Camboja. Suas dicas já estão todas no blog? Quero saber tudo!!!! Espero que no dia que eu for ver a ronda das almas esse tipo de situação não aconteça, mas pelo que li, é quase sempre assim. Infelizmente alguns turistas se excedem e são desrespeitosos. Uma pena. Abraços!

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    2. Flávia, voltei há duas semanas! Meu roteiro só não teve a Tailândia. Foi maravilhosa! Vou tentar aproveitar a semana de recesso para começar a contar sobre essa viagem. Já fique preparada para se apaixonar pelo Camboja. :-)

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    3. Nossa, então você está com tudo fresquinho! Vou acompanhar o blog!!! E já estou preparadíssima para me apaixonar! Tenho certeza que vou amar!!!

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